• Claudia Godoy

The Economist: Chanceler mexicano aponta virulência e fragilidade argumentativa

Atualizado: Jun 1

Por Claudia Godoy

O chanceler do México, Marcelo Ebrard (de gravata amarela) publicou nota no qual rebate artigos da publicação inglesa The Economist que, há poucos dias das eleições mexicanas, marcadas para o próximo domingo (06), convidou, na última semana, os eleitores a votar contra o presidente Andrés Manuel López Obrador e seu partido. "A opinião e o apelo surpreendem, não pela posição ideológica do seu veículo, mas por sua virulência e fragilidade argumentativa. Por trás disso, parece permear a visão de que a maioria da sociedade mexicana, especialmente aquela com menos recursos, está equivocada e apoia aqueles que não deveriam", disse o chanceler na carta endereçada ao The Economist, que deu capa sobre o México.


Ebrard (gravata amarela) destacou que o fracasso das elites em compreender a López Obrador hoje parece se repetir nas páginas do jornal.

"Elas desenham um panorama desolador para o país, mas perdem de vista que embora a economia mexicana, como a dos demais países, tenha sofrido os estragos da pandemia, crescerá cerca de 6% este ano, sem ter contraído dívidas, mantendo as finanças saudáveis ​​e com números históricos de Investimento Estrangeiro Direto", complementou Ebrard.


Leia a carta de Ebrard completa (tradução da embaixada do México)


Cidade do México, 27 de maio de 2021


Senhora editora:

Há poucas semanas tive o prazer de falar com o editor internacional de sua revista. Aproveitei a ocasião para expor os pontos fundamentais da profunda transformação política, econômica e social que o México vive há dois anos e meio. Falamos, entre outros temas, dos esforços que, como governo, estamos empreendendo para sair da pandemia COVID-19, de nossas relações construtivas com os Estados Unidos, bem como de nossa visão de expandir o desenvolvimento no sul do nosso país e da América Central e da situação política do país em geral.

O editor internacional do The Economist não foi sensível a apenas um dos argumentos. Pelo contrário, poucos dias antes das eleições nas quais os mexicanos elegerão livremente nossos representantes, seu veículo publica alguns artigos nos quais convida a votar contra o presidente e seu partido. A opinião e o apelo surpreendem, não pela posição ideológica do seu veículo, mas por sua virulência e fragilidade argumentativa. Por trás disso, parece permear a visão de que a maioria da sociedade mexicana, especialmente aquela com menos recursos, está equivocada e apoia aqueles que não deveriam. A capa de hoje é a síntese da exasperação. Sabe-se que o resultado da eleição, assim como aconteceu em 2018, não coincidirá com o que vocês desejam.

Recentemente, previa-se que López Obrador dificilmente chegaria ao poder e que, caso o eleitorado mexicano o elegesse, levaria o país a um inexorável fracasso econômico, caracterizado por desvalorização, hiperinflação, endividamento e a um confronto direto com os Estados Unidos.

Nada disso aconteceu. Ao contrário, o governo do presidente López Obrador cumpriu sua promessa de priorizar e reorientar os gastos até os mais pobres, como sempre prometeu. Ao mesmo tempo, manteve a disciplina fiscal e as finanças públicas saudáveis. Alcançou, por exemplo, aumentos históricos do salário-mínimo, ao mesmo tempo em que manteve a inflação sob controle e sustentou a estabilidade da moeda. No plano bilateral, conseguiu construir em pouco tempo uma relação de respeito e colaboração com a administração do Presidente Joseph R. Biden.

O fracasso das elites em compreender a López Obrador hoje parece se repetir em suas páginas. Elas desenham um panorama desolador para o país, mas perdem de vista que embora a economia mexicana, como a dos demais países, tenha sofrido os estragos da pandemia, crescerá cerca de 6% este ano, sem ter contraído dívidas, mantendo as finanças saudáveis ​​e com números históricos de Investimento Estrangeiro Direto.

Seu semanário questiona a resposta do governo ao COVID-19, mas ignora o esforço pelo qual o México conseguiu, em questão de meses, mais que dobrar sua capacidade de atendimento hospitalar e ter acesso oportuno e universal à vacina. Não à toa, o México é atualmente o décimo país com maior número de vacinas aplicadas à sua população, que, aliás, tem mantido seu apoio ao presidente em horas difíceis.

Mas talvez o mais impressionante dos textos, por ser absurdo, seja a sugestão de que o presidente López Obrador de alguma forma minou a democracia mexicana, quando o que fez foi exatamente o contrário. Muitos de seus leitores se lembrarão de que o México era até pouco tempo um país autoritário, sem liberdade de imprensa e sem eleições livres, que se democratizou graças ao impulso de muitos mexicanos, entre os quais se destaca López Obrador.

Sua luta de décadas contra um sistema fechado levou a uma democracia forte, plural e diversa, na qual, como nunca, a população é diretamente consultada sobre questões substantivas. Isso ocorre cotidianamente, por exemplo, nos Estados Unidos, onde propostas polêmicas são votadas junto com a eleição de candidatos.

Como nunca antes na história, no México existe plena liberdade de imprensa e de pensamento. Em um exercício inédito, o Presidente López Obrador presta contas ao público e mantém um diálogo circular com a imprensa. Os níveis de crítica do presidente López Obrador são incomparáveis ​​com os de seus antecessores (basta abrir qualquer jornal mexicano) e, no entanto, ele é o presidente mais popular da democracia mexicana.



Há duas explicações possíveis para que um governo como o do presidente López Obrador continue com uma grande margem de aprovação, mesmo depois de passar por momentos difíceis. A visão elitista, defendida ad nauseam, é que essas maiorias estão erradas e não sabem o que é realmente bom para elas. Outra, talvez a mais óbvia, mas surpreendentemente pouco considerada, é que a maioria das pessoas está favorecendo um sistema que as tem como prioridade pela primeira vez. Por acaso não é a hora de questionar se são as elites indignadas e exasperadas com o presidente López Obrador, e não a maioria que se sente representada e defendida, que estão erradas?

Vivemos tempos turbulentos e, sem dúvida, ainda há muito a fazer para vencer a pandemia, alcançar a decolagem definitiva da economia e cumprir a promessa de diminuir o enorme fosso social, mas a avaliação dos mexicanos é de que estamos bem e que estamos avançando. Talvez seja a hora das elites exasperadas, parafraseando um artigo de sua revista de alguns anos atrás, entender que não estão entendendo.


Atenciosamente,


Marcelo Ebrard

Secretário de Relações Exteriores