• Claudia Godoy

RECEITAS ūü•ĚDOūüćíMUNDOūü•£ūüćčūüĆĺ - Oriente M√©dio

Falafel

Os escravos muçulmanos gostavam de falafel e, ao chegar no Brasil, não conseguiram encontrar grão de bico. Então, eles começaram a adaptar a receita e a usar feijão. Surgia o acarajé.

Falafel. Foto: divulgação.
Acarajé. Foto: divulgação

O dado consta na s√©rie documental ‚ÄúA Hist√≥ria da Alimenta√ß√£o no Brasil‚ÄĚ, lan√ßada recentemente no servi√ßo de streaming Amazon Prime Video.


O oitavo epis√≥dio da s√©rie, intitulado ‚ÄúDieta Africana‚ÄĚ, fala das ra√≠zes africanas nos costumes alimentares de nosso Pa√≠s. A s√©rie √© baseada em livro hom√īnimo do antrop√≥logo potiguar Lu√≠s da C√Ęmara Cascudo (1898-1986) e √© dividida em 13 epis√≥dios.


Em entrevista por e-mail, o diretor da série, Eugenio Puppo, falou sobre o trabalho e sobre a relação entre o falafel, bolinho de grão de bico típico dos países árabes, e o acarajé, prato tradicional da culinária baiana.


‚Äú√Č muito dif√≠cil afirmar com certeza absoluta a origem de um prato ou costume alimentar, pois essa seria uma vis√£o muito estanque e fixa do processo de intera√ß√£o entre culturas. Entretanto, existem algumas pessoas dedicadas ao estudo da alimenta√ß√£o que afirmam que o acaraj√© se trata de uma adapta√ß√£o do falafel, que, com a vinda de africanos da regi√£o setentrional do continente ou pela influ√™ncia desses povos na cultura portuguesa, substituiu o gr√£o de bico pelo feij√£o fradinho‚ÄĚ, declarou Puppo.


O acarajé tradicional é feito com massa de feijão frita no dendê, com recheio de pimenta, vatapá, caruru, camarão seco e salada, conforme explica Nega Teresa no documentário.


Já o falafel é feito com massa de grão de bico e diversos temperos como cebola, alho, cominho, coentro, salsinha, pimenta síria e até canela, frito em óleo e servido com molho à base de tahine, a pasta de gergelim, ou como recheio de sanduíches árabes.


O diretor afirma que n√£o √© poss√≠vel precisar exatamente o per√≠odo hist√≥rico em que essa deriva√ß√£o ocorreu, e que h√° duas hip√≥teses plaus√≠veis consideradas. ‚ÄúProvavelmente foi no momento da vinda de africanos escravizados para a regi√£o do Rec√īncavo Baiano. Outra hip√≥tese √© que a cultura alimentar da √Āfrica no Norte j√° estava introjetada nos h√°bitos portugueses, por conta da longa ocupa√ß√£o do territ√≥rio pelos mouros‚ÄĚ, disse.


Eugenio Puppo explica melhor essa segunda hip√≥tese, afirmando que quando se fala em matriz europeia na culin√°ria brasileira, ela j√° vem carregada de toda uma bagagem pr√©via de muitos anos de intera√ß√Ķes culturais de Portugal com outros povos.


‚ÄúA quest√£o √© que C√Ęmara Cascudo enxerga o processo de coloniza√ß√£o do pa√≠s como um ponto fundamental para se come√ßar a pensar a alimenta√ß√£o nacional, em uma abordagem anti-regionalista. Claro que √© uma simplifica√ß√£o, uma vis√£o at√© um pouco totalizante, mas o encontro entre essas tr√™s figuras, o colonizador portugu√™s, o ind√≠gena e o africano escravizado, produz, segundo ele, uma din√Ęmica em nossa alimenta√ß√£o que perdura at√© a atualidade. Por isso essa afirma√ß√£o. √Č um legado portugu√™s que j√° carrega outros legados por si s√≥‚ÄĚ, disse.


Puppo afirma que outros dois ingredientes presentes na alimentação cotidiana dos brasileiros, o azeite e o mel, provavelmente vêm dessa influência árabe em Portugal e no Brasil.


Outros episódios da série contam a história de ingredientes e receitas tipicamente brasileiros como a farinha de mandioca, o milho, o cuzcuz, o leite de coco, a banana, o tucupi, as influências portuguesas, entre outros.