• Claudia Godoy

Embaixador belga lamenta mortes e alerta para perigo de protecionismo pós-pandemia

O embaixador da Bélgica, Patrick Hermann, alertou hoje (21) em discurso (veja completo no final) pela Data Nacional belga, para o perigo do retorno do protecionismo no mundo e para a paralisia econômica prolongada dos parceiros comerciais que "escolheram a ideologia em detrimento da imunologia". Hermann também avaliou que os efeitos futuros do BREXIT que deverá levar mais recessão à Europa.

O embaixador da Bélgica, Patrick Hermann. Foto: Claudia Godoy. A foto é anterior à pandemia de Covid-19.

As vidas perdidas em função da pandemia de Covid-19 também mereceram destaque no discurso do diplomata. "Muitos de nós tivemos um familiar, alguém próximo ou um amigo afetado pela doença, um emprego perdido, um projeto arruinado, um relacionamento rompido...", disse o embaixador. O diplomata belga ressaltou os 9.000 mil óbitos provocados pelo novo coronavírus na Bélgica, e avaliou que os dados ressaltam a transparência do governo ao divulgar informações sobre a pandemia e o nível de abertura econômica do país. "...o papel de entroncamento político e logístico da Europa e do mundo, de centro turístico e de negócios globais, de uma das economias mais abertas do planeta...". A abertura da economia belga, para Hermann, tem garantido o bem-estar e a riqueza do país por muito tempo, mas também pode ter contribuído para a multiplicação do "paciente 0" e das fontes de contaminação.


Hermann destacou, ainda no discurso, a importância do crescimento sustentável na retomada da economia pós-pandemia. Foto: Claudia Godoy. Foto de antes da pandemia.

"Para que o retorno ao crescimento seja rápido, mas também para que esse crescimento volte mais verde, mais inclusivo, mais diverso e mais respeitoso à esse multiculturalismo, do qual as notícias nos lembram a importância e a fragilidade", disse o embaixador belga.


Hermann citou como prioridade absoluta a segurança e bem-estar dos cidadãos belgas no território brasileiro. São cerca de 4 mil em trânsito no continente e 20 mil em todo o mundo. O diplomata agradeceu ONGs no Brasil pelos esforços para ajudar os mais carentes. "Com reconhecimento especial a Dom Felipe, Dom André e Dom Eugênio", lembrou o embaixador belga.


Veja o discurso completo

Caros compatriotas,


Para a maioria de nós, este 21 de julho será o mais triste de nossas vidas. Muitos de nós já tivemos um familiar, alguém próximo ou um amigo afetado pela doença, um emprego perdido, um projeto arruinado, um relacionamento rompido...


No entanto, acima de tudo, evidentemente, lamentamos os mortos aqui no Brasil, na Europa e em outras partes do mundo. Nosso país foi severamente atingido com mais de 9.000 óbitos. Como já dissemos, esses números refletem bastante o nosso elevado nível de transparência na publicação das estatísticas. Contudo, outros critérios provavelmente influenciaram, como o papel de entroncamento político e logístico da Europa e do mundo, de centro turístico e de negócios globais, de uma das economias mais abertas do planeta, papel que tem garantido o bem-estar e a riqueza do nosso país por tanto tempo, mas que pode ter contribuído para a multiplicação do "paciente 0" e das fontes de contaminação.


Nós lamentamos tantas vidas . Contudo, a união nacional que os líderes dos nossos partidos democráticos de esquerda e direita mostraram na decisão de confinamento geral e a disciplina e a resiliência que nossos compatriotas demonstraram no distanciamento social ajudaram a salvar dezenas de milhares de outras vidas.


Além disso, a extrema abertura da nossa economia, por tanto tempo um ativo formidável, será desafiada. O retorno do protecionismo na Europa e em outros lugares, a paralisia econômica prolongada dos nossos grandes parceiros comerciais que escolheram a ideologia em detrimento da imunologia e os efeitos futuros do BREXIT nos farão sofrer mais a recessão global do que muitos de nossos parceiros.


Nós devemos trabalhar hoje com as nossas associações, nossas organizações acadêmicas, nossos sindicatos e nossos empreendedores para que reencontremos essa solidariedade e essa coragem na fase de retomada econômica que se inicia, não apenas para que o retorno ao crescimento seja rápido, mas também para que esse crescimento volte mais verde, mais inclusivo, mais diverso e mais respeitoso à esse multiculturalismo, do qual as notícias nos lembram a importância e a fragilidade.


Para meus colegas diplomatas federais, regionais e comunitários em São Paulo, no Rio de Janeiro e aqui em Brasília, e também para nossa rede de cônsules honorários: a assistência às nossas empresas no Brasil, para restaurar os fluxos comerciais e de capitais duráveis e o patamar de igualdade, será, portanto, uma grande prioridade nos próximos meses.


Todavia, como sempre, nossa prioridade absoluta continuará sendo, inegavelmente, a segurança e o bem-estar dos cidadãos belgas no território brasileiro. Em trânsito ou estabelecidos aqui temporária ou permanentemente, nossos compatriotas devem saber que nossos consulados estão mais do que nunca a seu serviço durante esses tempos difíceis. A esse respeito, gostaria especialmente de agradecer às equipes dos nossos três postos de carreira e dos nossos escritórios de polícia e de alfândega pela extraordinária dedicação que demonstraram ao repatriar as centenas de belgas que estavam no Brasil quando a crise começou. Com 4.000 compatriotas de passagem pelo continente americano e mais de 20.000 em todo o mundo, esse esforço integrou a maior operação de assistência consular já organizada pelo nosso serviço público.


Gostaria também de agradecer às nossas ONGs no Brasil, subsidiadas ou não pela cooperação para o desenvolvimento belga, por seus enormes esforços para ajudar os mais carentes do país nesses tempos de crise - com um reconhecimento muito especial pela ação de caridade da nossa rede de irmãs e sacerdotes aqui no Brasil, incluindo Dom Felipe, Dom André e Dom Eugênio. Aos dois últimos, que acabaram de se aposentar do bispado, também desejo expressar minha admiração e meus melhores votos de felicidade em suas novas vidas pastorais.


Além dos laços econômicos, sociais e consulares, gostaria de mencionar rapidamente dois grandes projetos que lançamos no mês de julho para desenvolver ainda mais nossas relações com o Brasil, um no campo acadêmico, uma chamada aos ex-alunos brasileiros das nossas universidades para nos aproximar e formar uma única rede de contato, e o outro no campo cultural, uma série de cinco seminários on-line, de julho a setembro, sobre a visita histórica do Rei Alberto ao Brasil em 1920.


O embaixador da Bélgica, Patrick Hermann, lembrou as vidas perdidas em função ebrações organizadas pelos nossos cônsules gerais no Rio e em São Paulo, pelo nosso consulado em Belo Horizonte, pelo Belgian Club em São Paulo e pela Embaixada. Nossos sites e redes sociais fornecerão mais informações sobre estas celebrações. Até lá, desejo-lhe o melhor feriado nacional possível. Viva a Bélgica! Viva o Brasil!